A Força Feminina, Negra e Pobre

Carolina-Maria-de-Jesus

Nas minhas pesquisas e reflexões sobre a força feminina nas artes me lembrei de uma pessoa, uma verdadeira lenda que tive a oportunidade de conhecer pessoalmente. Você já ouviu falar em Carolina Maria de Jesus?
Hoje praticamente esquecida fora dos meios literários e sociológicos, Carolina Maria de Jesus foi uma grande escritora e guerreira que transformou em literatura sua experiência de vida como mulher, negra, pobre, favelada e mãe solteira nos meados do século passado.
Autora de clássico intitulado “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, publicado em 1960, ela foi consagrada como a primeira grande escritora negra da literatura brasileira.

Carolina Maria de Jesus
Eu tive a oportunidade de conhecê-la pessoalmente. Fui colega de escola de uma de suas filhas, Vera, e frequentei a casa dela algumas vezes, alguns anos antes de sua morte em 1977.
Mineira de Sacramento, nascida em 1914, Carolina Maria de Jesus teve uma infância e juventude bastante sofrida, vivendo as limitações impostas pela pobreza, pela ignorância e pelo preconceito fortemente manifestado na sociedade do começo do século passado.

A escritora Maria Carolina de Jesus, em foto de 8/4/1961 Estadão/Acervo

Ela cursou apenas os primeiros anos de escola, foi mãe de 2 filhos ilegítimos, foi proibida de frequentar a igreja e ao perder seus pais viu-se obrigada a mudar-se para São Paulo onde passou a trabalhar como catadora de papel . Isso em 1947, quando começavam a surgir as primeiras favelas na terra da garoa. Carolina foi morar em uma delas, no Canindé.
“Eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos.”
Uma metáfora tão forte só poderia ser concebida por uma pessoa que tivesse vivido nessa condição. Esse e muitos outros relatos foram descobertos no final da década de 1950 escritos em cadernos que Carolina encontrava no lixo. Eram seus diários. Os diários da vida na favela.

carolina
Quando lançado, “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada” vendeu espantosos (para a época) 100 mil exemplares e foi traduzido para 13 idiomas e lançado em mais de 40 países.
Os escritos de Carolina foram descobertos pelo jornalista Audálio Dantas quando pesquisava o surgimento das favelas para escrever sobre o tema. Ao conhecer os cadernos de Carolina ele desistiu da pesquisa pois percebeu que ele jamais poderia escrever com a mesma autoridade que ela.

A escritora Maria Carolina de Jesus, em foto de 13/12/1961 antes de embarcar para o Uruguai para lançar o livro "Quarto do Despejo" Estadão/Acervo

Carolina escrevia o que vivia e não o que imaginava. Quando ela fala dos efeitos da fome, ela descreve algo que realmente vivenciou. “Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos.”
Carolina sabia que era artista e não temia se enveredar por diferentes segmentos das artes. Um deles foi a música. Em 1961, ela lançou um disco com o mesmo título de seu primeiro livro onde interpreta 12 canções de sua autoria, como O Pobre e O Rico: “Rico faz guerra, pobre não sabe por que. Pobre vai na guerra, tem que morrer. Pobre só pensa no arroz e no feijão. Pobre não envolve nos negócios da nação…”

Carolina Maria de Jesus e Ruth de Souza na Favela do Canindé. São Paulo, 1961
O livro também se transformou em peça de teatro em 1961 com Ruth de Souza no papel de Carolina, direção de Amir Haddad e cenário de Cyro Del Nero.
Carolina de Jesus publicou ainda o romance Pedaços de Fome e o livro “Provérbios”, ambos em 1963. As duas publicações foram custeados por ela e não tiveram vendas significativas. Após sua morte, foram publicados o Diário de Bitita, com recordações da infância e da juventude; Um Brasil para Brasileiros (1982); Meu Estranho Diário; e Antologia Pessoal (1996).

Fotos: Acervo do Jornal O Estado de São Paulo

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